A Metade Que se Perde
As máquinas já apertam os botões do tráfego pago, e sobrou para o humano a parte que ninguém quer fazer (é ela que eu vendo, aviso desde já)
John Wanamaker abriu em 1876, na Filadélfia, uma das primeiras lojas de departamento do mundo, e fez isso com dois hábitos que na época pareciam ingenuidade comercial: pendurava etiqueta de preço nas mercadorias (o preço era o mesmo para qualquer freguês, o que escandalizava os vendedores treinados na pechincha) e devolvia o dinheiro de quem se arrependesse da compra.
Foi também um dos primeiros lojistas do mundo a comprar página inteira de jornal para anunciar, e é dele a frase que o mercado repete há um século, atribuída a ele com a confiança que só as frases boas recebem: metade do dinheiro que gasto em propaganda é desperdiçada, o problema é que não sei qual metade.
Wanamaker morreu em 1922 sem a resposta, e o século seguinte inteiro trabalhou para entregá-la, porque o tráfego pago nasceu exatamente como a solução do problema dele: cada clique rastreado, cada centavo com rastro, cada conversão com hora, origem e dispositivo, e pela primeira vez na história um anunciante podia saber, com precisão de auditoria, qual metade se perde.
E aqui começa a parte estranha desta história, porque cem anos depois eu sento com empresários que gastam trinta, cinquenta, oitenta mil reais por mês em mídia, com mais dados na mão do que Wanamaker viu na vida inteira, e eles não sabem me dizer se estão ganhando dinheiro (sabem o CTR, sabem o CPM, sabem o custo por clique de quinta à noite, e não sabem a única coisa que o velho lojista queria saber).
O problema de Wanamaker foi resolvido e a lamentação dele sobreviveu intacta, apenas mais bem vestida, e explicar como chegamos a esse resultado exige falar de um mercado que eu conheço por dentro.
Em algum momento da última década, gestão de tráfego virou a profissão mais vendida do Brasil, empacotada como a profissão do futuro em cursos que cabiam num fim de semana e formavam, aos milhões, profissionais que aprenderam onde clicar antes de aprender o que é margem.
A cadeia alimentar desse ecossistema fecha com uma elegância que merece registro: o guru vende o curso para o aluno, o aluno precisa de clientes para pagar o curso, o cliente escolhe pelo menor fee porque não sabe diferenciar um gestor de outro, e o menor fee é justamente o do aluno recém-formado, de modo que todo mundo recebe e ninguém sobra para perguntar se o negócio lucrou.
Desse arranjo nasceu o folclore que você vê no feed: o print de faturamento (faturamento não é lucro, mas print de lucro não existe, porque lucro exigiria mostrar custo), o ROAS comemorado sem contexto (faturar quatro para cada um investido é prejuízo em muita operação por aí, dependendo da margem, e ninguém te contou isso na proposta) e o relatório mensal de dezessete métricas que responde tudo, menos a pergunta do Wanamaker.
Enquanto isso, do outro lado do balcão, aconteceu uma coisa que o mercado de cursos prefere não discutir: as plataformas automatizaram o apertador de botões.
Google e Meta receberam trilhões de dólares do mercado mundial (são o único cassino em que a banca torce pelo apostador, porque quem lucra volta e aumenta a aposta), e usaram parte desses trilhões para ensinar a máquina a fazer sozinha o que o gestor mediano cobrava para fazer: segmentar, testar criativos, distribuir verba, encontrar o público.
Hoje uma campanha de estrutura simples e bem alimentada performa igual ou melhor do que a arquitetura barroca de conjuntos e interesses que sustentava muita fatura mensal, e isso não é opinião minha, é a direção declarada das próprias plataformas, que a cada ano pedem menos botões e mais insumo.
E é aqui que a história fica interessante, porque se a máquina aperta os botões, sobra para o humano exatamente a parte que esse mercado nunca quis fazer: a matemática do negócio (quanto você pode pagar por um cliente, quanto esse cliente vale ao longo dos meses, qual margem sustenta qual custo de aquisição), a oferta (o motivo concreto pelo qual um estranho pararia o dedo por você) e a honestidade sobre o produto, porque anúncio não conserta negócio, anúncio amplifica o que o negócio já é, e o lado ruim amplifica mais rápido.
Nada disso cabe num curso de fim de semana, e não porque seja difícil de ensinar, mas porque é desconfortável de vender: o aluno quer aprender a ferramenta, e essas três coisas não são ferramenta, são espelho.
Antes que pareça que estou só atirando nos colegas, registro que o comprador tem a própria assinatura nesse contrato, porque foi ele quem escolheu pelo menor fee, escondeu os números da operação (boa parte dos meus diagnósticos começa com um empresário que não sabe a margem por produto) e pediu resultado em trinta dias para um problema de dois anos, e milagreiro é uma profissão que só existe onde o pedido de milagre chega primeiro.
E se você está lendo isto com a sua conta de anúncios na cabeça, o raciocínio se aplica sem anestesia: se você investe em mídia há mais de um ano e não sabe dizer o lucro que ela produz, das duas uma, a) você teve azar estatístico com todos os fornecedores que já contratou, ou b) existe algo no jeito como você compra mídia que fabrica o mesmo resultado com fornecedores diferentes, e a hipótese b, embora menos lisonjeira, tem a vantagem de ser a única que está sob o seu controle.
Há um personagem secundário na história do Wanamaker que explica onde eu entro nisso tudo.
Em 1880, ele contratou um sujeito chamado John E. Powers para escrever seus anúncios, no que é considerado o primeiro emprego de copywriter em tempo integral da história, e Powers tinha um método que hoje seria reprovado em qualquer curso de fim de semana: dizia a verdade, inclusive a desfavorável. Conta-se que anunciou gravatas da loja avisando que elas não eram tão boas quanto pareciam (esgotaram no mesmo dia), e que Wanamaker o demitiu duas vezes por excesso de franqueza e o recontratou as duas, pelo motivo mais comercial que existe: a franqueza vendia.
Foi pensando em gente assim que eu desenhei a minha consultoria de tráfego pago, e como a maior parte das propostas desse mercado é vaga por estratégia (o que é vago não pode ser cobrado depois), vou descrever a minha com a etiqueta à vista, em passos, assumindo o risco cômico de descrever um processo em passos logo depois de ter publicado um texto chamado O Framework dos 7 Passos Para Lugar Nenhum (este tem quatro, e leva a algum lugar).
Tudo começa com uma conversa gratuita, que existe menos para vender e mais para triar, porque nela eu consigo descobrir se o seu caso é mesmo de consultoria, e você consegue descobrir se aguenta trabalhar comigo (as duas descobertas valem a hora investida, e uma parte dessas conversas termina comigo indicando outro caminho, o que também é uma entrega).
Se seguirmos adiante, você recebe uma lição de casa, e uso o termo de propósito: acesso à conta de anúncios e os números de verdade da operação, custo, margem por produto, histórico de vendas, o funil como ele é e não como deveria ser. Aviso desde já que essa etapa filtra mais gente do que o preço, porque reunir os próprios números obriga o empresário a olhar para coisas que ele vinha terceirizando para o dashboard, e é aqui que o trabalho começa de verdade (o seu, inclusive, porque consultoria não é serviço de entrega, é serviço de espelho com método).
Com o material na mão, eu mergulho: dias dentro da sua conta, da sua oferta e da sua matemática, cruzando o que a plataforma mostra com o que o caixa confirma, até localizar a sua metade que se perde, e ela sempre existe, o que varia é o tamanho e o endereço, porque às vezes está na campanha, muitas vezes está na oferta, no preço ou no funil depois do clique, e com alguma frequência está numa decisão que ninguém na empresa tomou.
E então vem a devolutiva, que é o produto: uma reunião longa em que eu te entrego o mapa completo, acompanhada de um documento escrito com o diagnóstico e o plano dos próximos noventa dias em ordem de prioridade, redigido para ser executado por você, pelo seu time ou pelo gestor que você já tem (que costuma agradecer, aliás, porque gestor bom rende mais em empresa que sabe o que quer dele).
Também é justo dizer o que a consultoria não é: não é gestão de tráfego, eu não vou operar a sua conta todo mês, e não é uma assinatura de dependência, porque o desenho inteiro existe para você entender a própria máquina e parar de precisar de mim (quem quiser, me mantém por perto acompanhando a execução, mas isso é um segundo pedido, nunca uma condição).
E o que eu não posso fazer por você: não controlo algoritmo, não garanto ROAS, não conserto produto ruim com verba e não tomo a decisão que só você pode tomar. O que eu posso é te poupar do método de aprendizado mais caro que existe, que é descobrir tudo isso sozinho, um gestor por vez, um semestre por vez, com o seu dinheiro pagando cada aula.
Se a pergunta é por que fazer isso agora, a conta é menos filosófica do que parece: cada mês anunciando sem conhecer a própria matemática é um mês inteiro financiando a metade errada, e o trabalho costuma se pagar no primeiro vazamento encontrado, porque vazamento em conta que gasta trinta, cinquenta mil por mês não é figura de linguagem, é folha de pagamento.
Não é um serviço para quem procura milagre, até porque esses o mercado já atende com fartura e parcelamento, é para o empresário adulto que quer a verdade do próprio negócio com a fatura na mesa, e que aceita que a resposta talvez não seja nova, apenas inconveniente.
A primeira conversa é gratuita, e as perguntas desconfortáveis também: me chame e a gente marca, e você chega nela sabendo exatamente o que está comprando, que foi o objetivo deste texto.
Quanto ao velho Wanamaker: os biógrafos dizem que ele pendurava etiqueta nas mercadorias porque acreditava que negócio decente começa dizendo quanto as coisas custam, e ainda assim passou a vida anunciando sem saber qual metade do dinheiro evaporava.
Você tem hoje o que ele nunca teve, cada centavo com rastro, e se continua sem a resposta, é pelo motivo de sempre: ela nunca esteve no dashboard, esteve na pergunta que ninguém na sua mesa tem interesse comercial em fazer. Eu tenho, é literalmente o meu negócio, e prefiro te contar isso com a etiqueta à vista (o homem que inventou a etiqueta entendia de anúncio como pouca gente entendeu).